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27 março, 2007

Um assassino Economico

As confissões de um assassino econômico

entrevista de John Perkins [*]


Estamos a falar com John Perkins, um ex-membro respeitado da comunidade de negócios na banca internacional. No livro " Confissões de um Assassino Económico" ( Confessions of an Economic Hit Man ) ele descreve como, enquanto profissional altamente bem pago, ajudou os Estados Unidos a defraudar em triliões de dólares países pobres do globo inteiro, emprestando-lhes mais dinheiro do que aquilo que eles podiam alguma vez pagar para depois se apossar das suas economias. [inclui reprodução sem correcções]

John Perkins descreve-se a si próprio como um ex-assassino económico – um profissional altamente remunerado que defraudou em triliões de dólares países do mundo inteiro. Há 20 anos que Perkins começou a escrever um livro com o título inicial de "Consciência de um Assassino Económico" (Conscience of an Economic Hit Man).


Perkins escreve
“Estava para dedicar este livro aos presidentes de dois países, homens que haviam sido seus clientes, que eu respeitava e considerava serem espíritos idênticos – Jaime Roldós, presidente do Equador, e Omar Torrijos, presidente do Panamá. Ambos morreram há pouco tempo em explosões aéreas. A morte deles não foi acidental. Foram assassinados porque se opuseram àquela fraternidade dos dirigentes das grandes companhias, do governo e da banca, cujo objectivo é o império global. Nós, os Assassinos Económicos não conseguimos persuadir Roldós e Torrijos, e o outro tipo de homens de golpe, os chacais sancionados pela CIA, que estavam sempre por trás de nós, entraram em acção. "


John Perkins continua:
“Eu fui convencido a deixar de escrever este livro. Recomecei-o mais de quatro vezes durante os vinte anos seguintes. Em todas as ocasiões, a minha decisão de voltar a começar foi influenciada pelos acontecimentos mundiais da época; a invasão do Panamá em 1980, a primeira guerra do Golfo, a Somália e a revolta de Osama Bin Laden. No entanto, as ameaças ou os subornos acabaram sempre por me convencer a parar”.


Mas finalmente Perkins publicou agora a sua história. O livro intitula-se Confessions of an Economic Hit Man. John Perkins está connosco aqui nos nossos estúdios de Firehouse. Ele trabalhou de 1971 a 1981 na firma internacional de consultoria de Chas T. Main onde era um “assassino económico”, como se descreve a si próprio. É o autor do recente livro Confessions of an Economic Hit Man.


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AMY GOODMAN: John Perkins está conosco aqui no nosso estúdio Firehouse. Bem-vindos ao programa Democracy Now!

JOHN PERKINS: Obrigado, Amy. É ótimo estar aqui.


AMY GOODMAN: É bom tê-lo aqui conosco. Vamos, explique-nos esta expressão “assassino econômico” (economic hit man), e.h.m., como lhe chama.

JOHN PERKINS: Basicamente aquilo para que somos treinados e aquilo a que o nosso trabalho se destina, é construir o império americano. Provocar... criar situações em que a maior parte possível dos recursos convirjam para este país, para as nossas companhias, e para o nosso governo. E na verdade, temos sido muito bem sucedidos. Construímos o maior império da história do mundo. Isto tem sido feito durante os últimos 50 anos, desde a II Guerra Mundial, de fato com pouco uso de poder militar. Só em ocasiões muito raras, como no Iraque, é que os militares aparecem como último recurso. Este império, ao invés de qualquer outro na história universal, foi construído principalmente através da manipulação econômica, através da burla, da fraude, da atração das pessoas para o nosso modo de vida, dos assassinos econômicos. Eu tomei parte nisso, em grande medida.


AMY GOODMAN: Como é que se tornou um deles? Para quem trabalhou?

JOHN PERKINS: Bem, inicialmente fui contratado quando estava na business school, nos finais dos anos sessenta, pela National Security Agency, a maior mas menos bem conhecida organização de espionagem; mas por fim trabalhei em empresas privadas.

O primeiro verdadeiro assassino econômico surgiu nos princípios dos anos 50, Kermit Roosevelt, neto de Teddy, que derrubou o governo do Irã, um governo democraticamente eleito, o governo de Mossadegh, que tinha sido a pessoa do ano da revista Time. Foi muito bem sucedido em fazer isso sem derramamento de sangue... bem, houve algum derramamento de sangue, mas não houve intervenção militar, apenas se gastaram milhões de dólares e substituiu-se Mossadegh pelo Xá do Irã. Nessa altura, percebemos que esta idéia de assassino económico era muitíssimo boa. Não tínhamos que nos preocupar com a ameaça de guerra com a Rússia se o conseguíssemos fazer desta maneira.

O problema era que desta forma Roosevelt passava a ser um agente da CIA. Ele era um funcionário do governo. Se fosse apanhado, ficaríamos metidos num grande sarilho. Ia ser muito constrangedor. Por isso, nessa altura, a decisão foi utilizar organizações como a CIA e a NSA para recrutar potenciais homens de golpe econômico como eu, e depois colocá-los a trabalhar em companhias privadas de consultoria, empresas de engenharia, companhias de construção... para que, se fôssemos apanhados, não pudesse haver ligação com o governo.



AMY GOODMAN: Bom. Fale-nos da companhia onde trabalhava.


JOHN PERKINS: Bem, a companhia onde trabalhava era uma companhia chamada Chas. T. Main em Boston, Massachusetts. Éramos cerca de 2000 empregados, e eu fui nomeado economista chefe. Acabei por ter cinquenta pessoas a trabalhar para mim.

Mas o meu verdadeiro trabalho era fazer negócios. Ou seja, conceder empréstimos a outros países, empréstimos gigantescos, muito maiores do que aquilo que eles algum dia poderiam pagar.

Uma das condições para conceder o empréstimo - digamos, de um bilhão de dólares para um país como a Indonésia ou o Equador - era que depois esse país tinha que pagar noventa por cento desse empréstimo a uma companhia americana, ou para companhias americanas, para construirem infra-estruturas – uma Halliburton ou uma Bechtel. Estas eram as maiores. Depois essas companhias iam para lá e construíam um sistema de electricidade ou portos ou auto-estradas que basicamente serviam apenas algumas das mais ricas famílias desses países. Em última análise, a gente pobre desses países ficava afogada nesta espantosa dívida que nunca poderia pagar.

Hoje, um país como o Equador deve mais de cinquenta por cento do seu orçamento nacional só para pagar a sua dívida. E claro que não consegue fazê-lo. Por isso, temo-los literalmente em cima dum barril. Assim, quando queremos mais petróleo, vamos ao Equador e dizemos, “Olhem, vocês não conseguem pagar a sua dívida, portanto, dêem às nossas companhias petrolíferas as florestas tropicais do Amazonas, que estão repletas de petróleo.” E hoje chegamos lá e destruímos as florestas tropicais do Amazonas, forçando o Equador a entregá-las porque acumularam toda essa dívida.

Assim, fazemos estes grandes empréstimos, a maior parte deles volta para os Estados Unidos, o país fica com a dívida mais imensos juros e, na prática, tornam-se nossos criados, nossos escravos. É um império. Não há dúvidas quanto a isto. É um império monstruoso. Tem sido extremamente bem sucedido.



AMY GOODMAN: Você diz que, por causa de subornos e por outras razões, deixou de escrever este livro durante muito tempo. O que é que quer dizer com isso? Quem tentou suborná-lo ou quem... que subornos é que aceitou?

JOHN PERKINS: Bem, nos anos noventa aceitei um suborno de meio milhão de dólares para não escrever o livro.


AMY GOODMAN: De quem?

JOHN PERKINS: De uma das maiores companhias de construção civil.


AMY GOODMAN: Qual delas?

JOHN PERKINS: Legalmente falando, não era... a Stoner-Webster. Legalmente falando não foi um suborno, foi... um pagamento por eu ser consultor. Foi tudo muito legal. Mas no fundo eu não fazia nada. Era um entendimento, como expliquei nas Confessions of an Economic Hit Man, que estava... para mim estava... estava implícito, quando aceitei este dinheiro como consultor, que eu não teria muito trabalho, mas não podia escrever quaisquer livros sobre o assunto, pois eles tinham conhecimento que eu estava a escrever este livro, a que nessa altura eu chamava 'Conscience of an Economic Hit Man'. E devo dizer-lhe, Amy, que é uma história extraordinária do ponto de vista de ... É quase à James Bond, na verdade. E eu quero dizer...


AMY GOODMAN: Bem, de facto é como se lê o livro.

JOHN PERKINS: Pois, era mesmo, não era? Quando a National Security Agency me contratou, fizeram-me testes num detector de mentiras durante um dia inteiro. Descobriram todos os meus pontos fracos e seduziram-me imediatamente. Utilizaram as drogas mais fortes da nossa cultura, o sexo, o poder e o dinheiro para me dominarem. Eu venho duma família muito antiga de New England, calvinista, mergulhada em valores morais espantosamente fortes. Sabe, eu acho que de uma forma genérica sou uma boa pessoa e penso que a minha história mostra verdadeiramente como este sistema e estas poderosas drogas do sexo, do dinheiro e do poder podem seduzir as pessoas, porque eu fui mesmo seduzido. E se eu não tivesse vivido esta vida de assassino económico, acho que teria passado um mau bocado só de pensar que havia quem fizesse estas coisas. E foi por isso que escrevi este livro, porque o nosso país precisa mesmo de perceber, se as pessoas desta nação percebessem o que é a nossa política internacional, o que é a ajuda internacional, como trabalham as nossas empresas, para onde vai o dinheiro dos nossos impostos, tenho a certeza de que exigiriam uma mudança.


AMY GOODMAN: No seu livro, fala de como ajudou a implementar um esquema secreto para recambiar para a economia americana milhares de milhões de dólares dos petrodólares da Arábia Saudita, e para posteriormente cimentar a estreita relação entre a Casa de Saud e as sucessivas administrações dos Estados Unidos. Explique isto.

JOHN PERKINS: Sim, foi uma época fascinante. Lembro-me bem, você é que devia ser demasiado jovem para se lembrar, mas eu lembro-me bem de como, no princípio dos anos setenta. a OPEP exercia o poder que tinha e cortou o fornecimento de petróleo. Os nossos carros faziam fila nos postos de gasolina. O país estava com medo de se encontrar noutra crise de colapso-depressão tipo 1929; e isto era inaceitável. Então, eles – o Departamento do Tesouro, contrataram-me a mim e a outros homens de golpe económico. Fomos para a Arábia Saudita. Nós...


AMY GOODMAN: Vocês intitulavam-se mesmo assassinos económicos... e.h.m.'s?

JOHN PERKINS: Sim, era um termo cifrado com que nos tratávamos a nós próprios. Oficialmente, eu era um economista chefe. Tratávamo-nos a nós próprios e.h.m.'s. Era cifrado. Era como se, ninguém ia acreditar em nós se disséssemos isto, não acha?

E então, fomos para a Arábia Saudita no princípio dos anos setenta. Sabíamos que a Arábia Saudita era a chave para eliminar a nossa dependência, ou para controlar a situação. E trabalhamos nesse negócio no qual a Casa Real de Saud concordava em enviar a maior parte dos seus petrodólares para os Estados Unidos e investi-los nas acções do governo dos Estados Unidos. O Departamento do Tesouro utilizava os juros destas acções para contratar companhias americanas para a construção de novas cidades na Arábia Saudita, de novas infra-estruturas... o que cumprimos. E a Casa de Saud concordava em manter o preço do petróleo dentro de limites aceitáveis para nós, o que eles têm feito durante todos estes anos, e nós concordávamos em manter a Casa de Saud no poder enquanto eles cumprissem isso, o que cumprimos, e que é uma das principais razões por que entramos em guerra com o Iraque.

E no Iraque tentámos implementar a mesma política que tinha sido tão bem sucedida na Arábia Saudita, mas Saddam Hussein não foi na conversa. Quando os homens de golpe econômico falham neste cenário, o passo seguinte são os chacais, como lhes chamamos. Os chacais são pessoas sancionadas pela CIA que chegam e tentam fomentar um golpe ou uma revolução. Se isso não resultar, passam aos assassinatos ou tentam fazê-lo.

No caso do Iraque, não conseguiram chegar até Saddam Hussein.
Ele tinha... Os guarda costas eram bons demais. Ele tinha duplos. Não conseguiram chegar até ele. Então, quando os homens de golpe econômico e os chacais falham, a terceira linha de defesa, a linha de defesa seguinte são os nossos rapazes e raparigas que são enviados para morrer e para matar, que é sem dúvida o que estamos a fazer no Iraque.



AMY GOODMAN: Pode explicar como é que Torrijos morreu?

JOHN PERKINS: Omar Torrijos, o presidente do Panamá. Omar Torrijos tinha assinado o Tratado do Canal com o Carter muito... e, sabe, passou no congresso por apenas um voto. Era uma questão altamente polémica.

Mas depois Torrijos seguiu em frente e negociou com o Japão a construção de um canal ao nível do mar. Os japoneses queriam financiar e construir no Panamá um canal ao nível do mar. Torrijos conversou com eles sobre isto, o que muito aborreceu a Corporation Bechtel, cujo presidente era George Schultz e o advogado sénior era Casper Weinberger.

Quando Carter foi corrido (e esta é uma história interessante... como é que isso aconteceu na realidade), quando ele perdeu as eleições, e entrou Reagan e Schultz veio da Bechtel para secretário de Estado, e Weinberger veio da Betchel para secretário da Defesa, estavam todos muito irritados com Torrijos... tentaram convencê-lo a renegociar o Tratado do Canal e a não falar com os japoneses. Ele recusou obstinadamente. Era um homem de princípios. Tinha os seus problemas, mas era um homem de princípios. Era um homem extraordinário, Torrijos.

E então, morreu numa explosão do avião, que foi provocada por um gravador com explosivos lá dentro, que... eu estava lá. Tinha estado a trabalhar com ele. Eu sabia que nós, os assassinos econômicos, havíamos falhado. Eu sabia que os chacais estavam a cercá-lo e, logo a seguir, o avião explodiu com uma bomba dentro de um gravador. Não tenho a menor dúvida que foi com a sanção da CIA e mais... a maior parte dos investigadores da América latina chegaram à mesma conclusão. Claro, nunca se ouviu falar de tal coisa no nosso país.



AMY GOODMAN: Então, onde... quando é que se deu a sua mudança?

JOHN PERKINS: Sempre senti um sentimento de culpa, mas deixei-me seduzir. O poder destas drogas, o sexo, o poder e o dinheiro, era forte demais para mim. E, claro, eu estava a fazer coisas para as quais tinha sido estimulado com pancadinhas nas costas. Eu era economista chefe. Eu estava a fazer coisas de que Robert McNamara gostava e por aí fora.


AMY GOODMAN: Até que ponto era a sua relação de trabalho com o Banco Mundial?

JOHN PERKINS: Muito, muito próxima com o Banco Mundial. O Banco Mundial fornece a maior parte do dinheiro que é utilizado pelos assassinos econômicos, ele e o FMI. Mas, quando houve o atentado de 11 de Setembro, senti um choque. Percebi que tinha que contar a história porque aquilo que aconteceu no 11 de Setembro é o resultado direto do que os assassinos econômicos têm vindo a fazer.

E a única maneira de nos sentirmos outra vez em segurança neste país e de nos sentirmos bem com nós mesmos, é utilizarmos estes sistemas que implementámos para criar uma mudança positiva em todo o mundo. Estou convencido que podemos fazer isso.

Acho que é possível dar a volta ao Banco Mundial e a outras instituições para fazerem aquilo a que originalmente se destinavam, ajudar a reconstruir partes devastadas do mundo.

Ajudar… ajudar verdadeiramente as pessoas pobres. Há vinte e quatro mil pessoas a morrer de fome todos os dias. Nós podemos alterar isso.



AMY GOODMAN: John Perkins, quero agradecer-lhe imenso por ter estado connosco.

O livro de John Perkins intitula-se Confessions of an Economic Hit Man.


[*] Entrevista a John Perkins realizada em 09/Nov/2004 no programa 'Democracy Now'.
Tradução de Margarida Ferreira

Original:
http://www.democracynow.org/article.pl?sid=04/11/09/1526251#transcript

Fonte: http://resistir.info/eua/perkins_hit_man_port.html

23 fevereiro, 2007

Perversão da linguagem

Linguagem Moderna



por Eduardo Galeano


Na era vitoriana, as calças não podiam ser mencionadas na presença de uma senhorita.

Hoje, não fica bem dizer certas coisas na presença da opinião pública. O capitalismo ostenta o nome artístico de economia de mercado, o imperialismo chama-se globalização.

As vítimas do imperialismo chamam-se países em vias de desenvolvimento, o que é como chamar de crianças os anões.

O oportunismo chama-se pragmatismo, a traição chama-se realismo.

Os pobres chamam-se carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos.

A expulsão das crianças pobres do sistema educativo é conhecida sob o nome de deserção escolar.

O direito do patrão a despedir o operário sem indenização nem explicação chama-se flexibilização do mercado laboral.

A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria.

Ao invés de ditadura militar, diz-se processo.

As torturas chamam-se pressões ilegais, ou também pressões físicas e psicológicas.

Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões, e sim cleptômanos.

O saqueio dos fundos públicos pelos políticos corruptos responde pelo nome de enriquecimento ilícito.

Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos automóveis.

Para dizer cegos, diz-se não visuais, um negro é um homem de cor.

Onde se diz longa e penosa enfermidade, deve-se ler cancro ou Aids.

Doença repentina significa enfarte, nunca se diz morte e sim desaparecimento físico.

Tampouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares.

Os mortos em batalha são baixas, e as de civis que a acompanham são danos colaterais.

Em 1995, aquando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: "Não me agrada essa palavra bomba, não são bombas. São artefatos que explodem".

Chamam-se "Conviver" alguns dos bandos que assassinam pessoas na Colômbia, à sombra da proteção militar.

Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade a maior prisão da ditadura uruguaia.

Chama-se Paz e Justiça o grupo paramilitar que, em 1997, metralhou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, no momento em que rezavam numa igreja da aldeia de Acteal, em Chiapas.


Fonte (tradução) http://resistir.info/galeano/galeano_medo_global.html

18 dezembro, 2006

Agro-energia e ecologia


O petróleo que comemos



por Richard Manning [*]


O segredo de uma grande riqueza com nenhuma fonte óbvia é algum crime esquecido porque foi cometido de modo impecável.
-- Balzac


A regra dos jornalistas diz: siga o dinheiro. Esta regra, contudo, não é realmente axiomática e sim um corolário pois o dinheiro, como até o nosso vice-presidente poderá confirmar, é na verdade um meio de ir ao encalço da energia. Nós seguiremos a energia.


Aprendemos em criança que não há almoços gratuitos; que não se pode obter alguma coisa a partir do nada; que o que sobe deve descer, e assim por diante. A versão científica destas verdades é apenas ligeiramente mais complexa. Como descobriu James Prescott Joule no século XIX, há apenas um tanto de energia. Você pode mudá-la de movimento para calor, de calor para luz, mas nunca haverá mais nem nunca haverá menos dela. A conservação da energia não é uma opção, é um facto. Esta é a primeira lei da termodinâmica.


Ainda que os humanos sejam especiais, não podemos fugir às regras. Todos os animais comem plantas ou comem animais que comem plantas. Isto é a cadeia alimentar, e a atracção é a capacidade única das plantas de transformar a luz do sol em energia armazenada sob a forma de carbohidratos, o combustível básico de todos os animais. A fotosíntese da luz do sol é o único meio de fabricar este combustível. Não há alternativa para a energia das plantas, assim como não há alternativa para o oxigénio. Os resultados da eliminação da energia que obtemos das plantas podem não ser tão súbitos como o do corte do oxigénio, mas eles são inevitáveis.


Os cientistas dão um nome à quantidade total da massa de plantas criada pela Terra num dado ano, que é o orçamento total para a vida. Eles chamam a isto a "produtividade primária" do planeta. Houve duas tentativas de descobrir como é gasta tal produtividade, uma de um grupo na Universidade de Stanford e outra de uma contagem independente efectuada pelo biólogo Stuar Pimm. Ambas concluem que nós humanos, uma espécie única entre milhões, consumimos 40 por cento da produtividade primária da Terra, 40 por cento de tudo o que há. Este simples número pode explicar porque a actual taxa de extinção é 1000 vezes [maior] daquela que existiu antes do domínio humano sobre o planeta. Nós 6 mil milhões simplesmente roubámos a comida, os ricos entre nós roubaram um bocado mais do que os outros.


A energia não pode ser criada ou eliminada, mas pode ser concentrada. Este é o contexto mais amplo e profundo que explica um memorando sobre segurança nacional escrito por George Kennan 1948, quando era responsável por um comité de planeamento do Departamento de Estado. Aparentemente é acerca da política asiática mas na verdade é acerca de como os Estados Unidos deveriam actuar no seu novo papel de força dominante da Terra. "Temos cerca de 50 por cento da riqueza do mundo mas apenas 6,3 por cento da sua população", escreveu Kennan. "Em tal situação, não poderemos deixar de ser objecto de inveja e ressentimento. Nossa tarefa real no período vindouro é conceber um padrão de relacionamento que nos permita manter esta posição de disparidade sem prejudicar a nossa segurança nacional. Para conseguir isso teremos de dispensar quaisquer sentimentalismos e devaneios; nossa atenção terá concentrar-se em todos os aspectos dos objectivos nacionais imediatos. Precisamos não nos enganar a nós próprios com a ideia de que podemos permitir-nos hoje o luxo do altruísmo e da beneficência mundial". "Não está longe o dia", concluiu Kennan, "em que teremos de tratar [o mundo] em termos de conceitos de poder directo".




ARROZ, MILHO, TRIGO



Se você seguir a energia, acabará finalmente num campo algures. Os humanos empenham-se num vertiginoso conjunto de artifícios e indústria. No entanto, mais de dois terços da humanidade depende dos resultados da produtividade primária da agricultura, dois terços do quais por sua vez consistem em três plantas: arroz, trigo e milho. Nos 10 mil anos decorridos desde que os humanos domesticaram estes grãos, o seu status permaneceu em toda plenitude, mais provavelmente porque os mesmos são capazes de armazenar energia solar em maços densos e transportáveis de carbohidratos de uma forma única. Eles são para a vegetação mundial aquilo que um barril de petróleo refinado representa para os hidrocarbonetos mundiais. Na verdade, com excepção dos hidrocarbonetos, são a mais concentrada forma de riqueza verdadeira - a energia do sol - encontrável sobre o planeta.


Como reconheceu Kennan, entretanto, a manutenção de uma tal concentração de riqueza muitas vezes exige acções violentas. A agricultura é um experimento humano recente. Durante a maior parte da história humana vivemos da colecta ou da matança de uma vasta variedade de bens da natureza. A razão porque os humanos poderão ter mudado esta abordagem para as complexidades da agricultura é uma questão interessante e debatida há muito, especialmente porque a evidência esquelética indica claramente que os agricultores primitivos eram alimentados mais pobremente, mais sujeitos a doenças e deformados do que os seus contemporâneos caçadores-colectores. A agricultura não melhorou a maior parte das vidas. A evidência que melhor aponta para a resposta, penso eu, jaz na diferença entre as aldeias agrícolas primitivas e as suas equivalentes pré-agrícolas - a presença não apenas de grão mas de celeiros e, de forma mais reveladora, de apenas umas poucas casas significativamente maiores e mais enfeitadas do que todas as outras anexas àqueles celeiros. A agricultura era não tanto uma questão de comida e sim uma questão de acumulação de riqueza. Ela beneficiou alguns humanos, e aquelas pessoas ficaram nas chefias desde então.


A domesticação também foi uma mudança radical na distribuição de riqueza no interior da vegetação. As plantas podem dispender o seu rendimento solar de vários modos. A estratégia dominante e prudente é atribuir a maior parte delas à construção de raízes, troncos, cascas - uma carteira de investimentos conservadora que permita à planta melhor reunir energia e sobreviver nos anos maus. Além disso, ao viver em diversas posturas (um dado bocado de pradaria nativa talvez contenha umas 200 espécies de plantas), estas plantas perenes proporcionam serviços para outras, tais como reter água, protegerem-se umas às outras do vento, e fixar nitrogénio livre do ar para utilizar como fertilizante. A diversidade permite a um sistema "promover a sua própria fertilidade", para usar uma frase do agrónomo visionário Wes Jackson. Isto é a norma mundial das plantas.


Há um grupo muito estreito de plantas anuais, contudo, que crescem em manchas de espécies únicas e armazenam quase todo o seu rendimento enquanto semente, num fardo compactado de carbohidratos facilmente exploráveis por comedores de sementes como nós próprios. Sob circunstâncias normais, esta estratégia de por todos os ovos num cesto é uma ideia tola para uma planta. Mas não durante catástrofes tais como inundações, incêndios e erupções vulcânicas. Tais catástrofes varrem as comunidades de plantas estabelecidas e criam oportunidades para o vento espalhar sementes portadoras de espírito empresarial. Não é por acidente que não importa onde a agricultura tenha florescido no globo, isto sempre aconteceu próximo a rios. Pode-se assumir, como muitos o fizeram, que isto se verifica porque as plantas precisam da água ou de nutrientes. Na maioria das vezes não é verdade. Elas precisam do poder da inundação, a qual limpa paisagens e afasta competidores. Não é por acaso, penso, que a agricultura cresce independentemente e simultaneamente por todo o globo assim que termina a última era glacial, um tempo de enorme reviravolta quando o gelo glacial fundiu-se formando grandes lagos que criaram ondas de erosão. Foi um tempo de catástrofe.


O milho, o arroz e o trigo são especialmente adaptados à catástrofe. Este é o seu nicho. No esquema natural das coisas, uma catástrofe criaria um quadro em branco, um solo nu, o que era bom para elas. Então, sob circunstâncias normais, a sucessão rapidamente preencheria aquela nicho. As plantas anuais colonizariam. As suas raízes estabilizariam o solo, acumulariam matéria orgânica, proporcionariam cobertura. Finalmente o nicho catastrófico fechar-se-ia. A agricultura é o processo de lavrar aquele nicho aberto muitas e muitas vezes. É uma catástrofe anual artificial e exige o equivalente a três ou quatro toneladas de TNT por acre (4047 m 2 ) numa moderna propriedade agrícola americana. Os campos de Iowa exigem a energia de 4000 bombas de Nagasaki por ano.


Quase toda Iowa agora é campo. Pequenas pradarias subsistem, aquilo a que os iowanos chamam um "selo postal" remanescente, muito provavelmente a confinar com um campo de milho. Isto permite uma observação. Passeie da pradaria para o campo e provavelmente descerá cerca de seis pés (1,8 m), como se a terra houvesse sido roubada debaixo de si. Relatos de colonizadores que conquistaram a pradaria mencionam um som, uma série de estouros, como tiros de pistolas, o som de robustas raízes a romperem-se perante as lâminas do arado (moldboard plow). Um esbulho estava em andamento.


Quanto dizemos que o solo é rico, isto não é uma metáfora. Ele é tão rico em energia quanto um poço de petróleo. Uma pradaria converte energia para flores, raízes e caules, os quais por sua vez retornam ao solo como matéria orgânica morta. As camadas do topo do solo acumularam um rico repositório de energia, um banco. Um campo agrícola apropria-se daquela energia, transforma-a em sementes que podemos comer. Grande parte da energia move-se da terra para os anéis de gordura em torno das nossas nucas e cinturas. E muita da energia é simplesmente desperdiçada, um rasto de dólares a escapar do saco do ladrão.


Já mencionei que nós humanos tomamos 40 por cento da produtividade primária do globo a cada ano. Você pode ter suposto que nós e o nosso gado comemos todo aquele volume, mas não é o caso. Parte daquele total - quase um terço dele - é o potencial da massa de plantas perdidas quando florestas são derrubadas para a agricultura ou quando florestas de chuva tropical são cortadas para serem transformadas em pasto ou quando arados destroem a trama profunda de raízes de pradaria que mantêm todo o negócio junto, disparando a erosão. O Dust Bowl [1] não foi um acidente da natureza. Uma pradaria de pasto em funcionamento produz mais biomassa por ano do que o faz o mais tecnologicamente avançado dos campo de trigo. O problema é que na maior parte sob a forma de uma erva que os humanos não podem comer. Assim, substituímos a pradaria com a nossa própria erva preferida, o trigo. Não importa que alimentemos a maior do nosso gado com cereais, e que o gado fique perfeitamente satisfeito em comer ervas nativas. E não importa que ali provavelmente houvesse mais bisontes produzidos naturalmente sobre as Grandes Planícies antes da agricultura do que todo o bife que os agricultores hoje criam na mesma área. Nossos ancestrais achavam preferível retirar a energia do solo e moverem-se quando ela desaparecia.


Hoje fazemos o mesmo, só que agora, quando o cofre está vazio, nós o enchemos outra vez com nova energia na forma de fertilizantes ricos em petróleo. O petróleo é produtividade primária anual armazenada como hidrocarbonetos, um fundo fiduciário (trust fund) de pouco valor, acumulado ao longo de muito milhares de anos. Em média, gasta-se 5,5 galões (20,8 litros) de energia fóssil para restaurar o valor da fertilidade anual perdida num acre (4047 m 2 ) de terra erodida - em 1997 queimámos directamente o valor de mais de 400 anos de antiga produtividade fossilizada, a maior parte dela proveniente de lugares distantes. Quando a terra debaixo de Iowa encolhe-se, está a ser globalizada.


Seis mil anos antes de agricultores (sodbusters) irromperem em Iowa, seus ancestrais caucasianos irromperam na planície húngara, uma área a noroeste das Montanhas do Cáucaso. Os arqueólogos denominam esta tribo como LBK, abreviatura para linearbandkeramik, a palavra alemã que descreve a cerâmica inconfundível que marca a sua ocupação da Europa. Os antropólogos chamam-nos o povo trigo-bife, um nome que liga melhor aqueles povos antigos ao longo do Danúbio com os meus companheiros de Montana na parte alta do Rio Missouri. Estes proto-europeus tinham um conjunto completo de plantas e animais domesticados, mas o trigo e o bife dominavam. Todos os domesticados provinham de uma área ao longo do que é agora a fronteira da Iraque-Síria-Turquia que orla as Montanhas Zagros. Este foi o centro de domesticação das principais plantações e gado vivo do mundo ocidental, o marco zero da agricultura catastrófica.


Dois outros tipos de agricultura catastrófica evoluíram aproximadamente ao mesmo tempo, uma centrada sobre o arroz no que é agora a China e a Índia e outra centrada sobre o milho e as batatas na América Central e do Sul. O arroz é tropical e sua expansão depende da água, de modo que desenvolveu-se apenas em planícies inundáveis, estuários e pântanos. A agricultura do milho era tão voraz quanto a do trigo; os aztecas podiam ser tão brutais e imperialistas quanto os romanos ou os britânicos, mas as culturas do milho entraram em colapso com a carnificina da conquista espanhola. O próprio milho simplesmente juntou-se à coligação do povo do trigo-bife. O trigo era o construtor do império; seus reduzidos factos botânicos ditavam o movimento e a violência que conhecemos como imperialismo.


O povo do trigo-bife passou rapidamente através das planícies da Europa ocidental, em menos de 300 anos, uma conquista que alguns arqueólogos chamam de "blitzkrieg". Uma raça diferente de humanos, os Cromagnons - caçadores-colectores, não agricultores - vivia naquelas planícies ao tempo. Sua arte em cavernas em lugares tais como Lascaux testemunha o seu refinamento e ligação profunda à fauna selvagem. Eles provavelmente realizavam a maior da sua caça e colecta em terras altas e em rios, lugares que os agricultores do trigo não necessitavam, o que sugere a possibilidade da coexistência. Contudo, não foi o que aconteceu. Tanto a evidência genética como a linguística indica que os agricultores mataram os caçadores. O povo basco é provavelmente o único remanescente que descende dos Cromagnons, o único sinal.


Os sítios arqueológicos do período de caçadores-colectores contêm pontas de lança afiadas que originalmente pertenciam aos agricultores, e podemos imaginar que não eram bens comerciais. Um grupo de antropólogos concluiu: "A evidência da extensão ocidental dos LBK deixa pouco espaço para qualquer outra conclusão a não ser que as interacções LBK-Mesolíticas foram na melhor das hipóteses gélidas e na pior hostis". Os sobreviventes do mundo do Pés Pretos, Sioux Assiniboine, Incas e Maori provavelmente têm a melhor ideia do que foi a natureza destas interacções.


O trigo é temperado e prefere campos arados. O globo tem um stock limitados de campos temperados, assim como um stock limitado de todos os outros biomas. Em média, cerca de 10 por cento de todos os outros biomas permanece hoje em algo como o seu estado nativo. Apenas 1 por cento dos campos temperados permanecem não destruídos. O trigo toma tudo o que precisa.


A oferta de campos temperados jaz no que são hoje os Estados Unidos, o Canadá, os pampas sul-americanos, Nova Zelândia, Austrália, África do Sul, Europa e a extensão asiáticas da planície europeia dentro das estepes sub-siberianas. Isto descreve amplamente o Primeiro Mundo, mundo desenvolvido. Campos temperados constituem não só o habitat do trigo e do bife como também as ilhas do globo de caucasianos, com sobrenomes e línguas europeias. No ano 2000 os países dos campos temperados, os neo-europeus, representavam cerca de 80 por cento de todas as exportações de trigo do mundo, e cerca de 86 por cento de todo comércio. Isto quer dizer que os neo-europeus dirigem a agricultura do mundo. O domínio não se limita aos cereais. Estes países, mais a mãe Europa representavam três quartos de todas as exportações agrícolas do mundo em 1999.


Platão escreveu acerca dos agricultores do seu país: O que agora resta das terras anteriormente ricas é como que o esqueleto de um homem doente. Antigamente, muitas das montanhas eram aráveis. A planícies que estavam repletas de solo rico agora são pântanos. Colinas que outrora estavam cobertas com florestas e produziam pasto abundante agora produzem apenas alimentos para abelhas. Outrora a terra era enriquecida por chuvas anuais, as quais não eram perdidas, como são agora, ao fluírem da terra nua para o mar. O solo era profundo, absorvia e mantinha a água em terra argilosa, e a água que era absorvida nas colinas alimentava ribeiros e água corrente por toda a parte. Agora os santuários abandonados em pontos onde outrora houve ribeiros confirmam que nossa descrição da terra é verdadeira.


O lamento de Platão está enraizado na agricultura do trigo, a qual esgotou o solo do seu país e posteriormente provocou as séries de declínios que empurraram os centros de civilização para Roma, Turquia e Europa ocidental. No século V, contudo, a estratégia do trigo de esgotar e mover-se para a frente deparou-se com o Oceano Atlântico. A agricultura confinada do trigo é como a agricultura do arroz. Ela equilibra suas equações com a fome. No milénio entre 500 e 1500 a Grã-Bretanha sofreu uma grande fome "correctiva" a cada dez anos; houve 75 em França durante o mesmo período. A incidência, contudo, caiu agudamente quando a colonização trouxe um influxo de novos alimentos para a Europa.


As novas terras tinham um efeito ainda maior sobre os próprios colonizadores. Thomas Jefferson, num jantar em Paris, depois de aguentar uma palestra dos seus hospedeiros acerca da natureza rústica, salientou que todos os americanos presentes eram uma boa cabeça mais altos do que os franceses presentes. Na verdade, todos os colonizadores de origem europeia desfrutavam de maior estatura e longevidade, bem como mais baixa taxa de mortalidade infantil - indicadores da melhor nutrição permitida pelo dispêndio do capital acumulado anteriormente no solo virgem.


O LIMITE ATINGIDO EM 1960 E A REVOLUÇÃO VERDE


As fomes pré-coloniais da Europa levantaram a questão: O que aconteceria quando a oferta de terra arável do planeta acabasse? Temos uma resposta clara. Cerca de 1960 a expansão atingiu seus limites e a oferta de terras aráveis não cultivadas chegou a um fim. Nada fora deixado para arar. O que aconteceu foi que os rendimentos dos cereais triplicaram.


A expressão aceite para esta estranha viragem dos acontecimentos é revolução verde, embora fosse mais adequado etiquetá-la como revolução âmbar, porque ela aplicou-se exclusivamente a cereais - trigo, arroz e milho. Autores de plantas consertaram a arquitectura destes grãos de modo a que pudessem ser hiper-carregados com água de irrigação e fertilizantes químicos, especialmente nitrogénio. Esta inovação uniu-se habilmente com a "eficiência" acrescida do sistema industrializado fábrica-fazenda. Com a possível excepção da domesticação do trigo, a revolução verde é a pior coisa que alguma vez já aconteceu no planeta. Para começar, ela rompeu os padrões há muito estabelecidos da vida rural em todo o mundo, movendo um bocado de pessoas não-mais-necessárias para fora da terra e para dentro da mais severa pobreza do mundo. A experiência Do controle de população no mundo em desenvolvimento é agora clara. Não se trata de que pessoas façam mais pessoas em demasia e sim de que elas fazem mais pessoas pobres. No período de 40 anos principiado cerca de 1960, a população do mundo duplicou, somando virtualmente um aumento total de 3 mil milhões às classes mais pobres do mundo, as classes mais fecundas. A forma pela qual a revolução verde elevou aqueles cereais contribuiu enormemente para o boom populacional, e é o peso demográfico que deixa a humanidade na sua presente posição desprotegida (untenable).


Discussões destas, sobre a maioria pobre, são contudo irrelevantes para a situação americana. Nós dizemos que temos pobres aqui, mas quase ninguém neste país vive com menos do que um dólar por dia, a referência global para a pobreza. Isto diferencia uma classe de cerca de 1,3 mil milhões de pessoas, o núcleo duro de um grupo maior de 2 mil milhões de pessoas cronicamente mal nutridas - ou seja, um terço da humanidade. Podemos esquecê-los, como o faz a maior parte dos americanos.


Mais relevante aqui são os métodos da revolução verde, os quais acrescentaram ordens de grandeza à devastação. Ao minerar o ferro para tractores, perfurar o novo petróleo para alimentá-los e fabricar fertilizantes nitrogenados e ao levar a água que chove e dos rios para outras terras, a agricultura estendeu suas fronteiras, seu domínio, a terras que não eram agriculturáveis. Ao mesmo tempo, estendeu suas fronteiras no tempo, recorrendo à energia fóssil, devastando activos do passado.


COMIDA É PETRÓLEO


A suposição comum nestes dias é que passamos em revista nossas armas a fim de assegurar o petróleo, não a comida. Isto parece uma anedota. Sempre, desde que ficámos desprovidos de terra arável, a comida é o petróleo. Toda simples caloria que comemos é suportada por pelo menos uma caloria de petróleo, mais provavelmente dez. Em 1940 a propriedade agrícola média nos Estados Unidos produzia 2,3 calorias de energia alimentar para cada caloria de energia fóssil que utilizava. Em 1974 (o último ano em que alguém examinou de perto esta questão), aquele rácio era 1:1. E isto ameniza os dados do problema, porque ao mesmo tempo que há mais petróleo na nossa comida há menos petróleo no nosso petróleo. Um par de gerações atrás gastávamos um bocado menos energia ao perfurar, bombear e distribuir do que gastamos agora. Na década de 1940 obtínhamos cerca de 100 barris de petróleo de retorno por cada barril de petróleo que gastávamos para obte-lo. Hoje, cada barril investido no processo retorna apenas dez, um cálculo que deixa de incluir o combustível queimado pelas viaturas Hummer e helicópteros Blackhawks que utilizamos para manter o acesso ao petróleo do Iraque.


David Pimentel , um perito em alimentos e energia da Cornell University, estimou que se todo o mundo comesse da forma como os Estados Unidos comem, a humanidade exauriria todas as reservas globais conhecidas de combustível fóssil em apenas cerca de sete anos. Pimentel tem os seus detractores. Alguns acusam-no de afastar-se de outros cálculos em até 30 por cento. Muito bem. Ponha dez anos.


Os fertilizantes põem uma linda bomba em circulação, uma lição de química que Timothy McVeigh [2] deu no Edifício Federal Alfred P. Murrah, em Oklahoma City, no ano de 1995 - não é um assunto sem importância, pois a revolução verde tornou os fertilizantes nitrogenados omnipresentes em alguns dos mais violentos e desesperados cantos do mundo. Ainda assim, há mais para examinar do que a menos sensacional química do nitrogénio.


A quimiofobia dos tempos modernos exclui o medo dos simples elementos da tabela periódica dos elementos. Circulamos petições, realizamos audiências, lançamos sítios web, compramos e vendemos legisladores graças ao respeito que inspiram os compostos orgânicos polissilábicos - bifenis policlorinatados, polivinis, DDT, 2-4d, essa espécie de coisas - mas não com o simples carbono ou nitrogénio. Não que a utilização agrícola da química mais enfeitada seja benigna - uma criança nascida num condado rural produtor de trigo nos Estados Unidos tem cerca do dobro de probabilidade de sofrer defeitos de nascimento do que uma nascida num lugar rural que não produza trigo, um efeito que os investigadores atribuem aos herbicidas clorofenoxis. Focar a poluição dos pesticidas, contudo, omite o pior dos poluentes. Esqueça os polissilábicos orgânicos. É o nitrogénio - o manancial de fertilidade ao qual está confiado todo o Paraíso, a obsessão dos jardineiros de quintal e de agricultores suburbanos - que nós devemos temer mais.


Aqueles que modelam o nosso planeta como um organismo assim o fazem na base de que a terra parece respirar - ela prospera ao converter uma curta lista de elementos básicos de um composto no seguinte, assim como nossos corpos fazem o ciclo do oxigénio em dióxido de carbono e as plantas do dióxido de carbono em oxigénio. De facto, dois dos mais fundamentais humores do planeta são oxigénio e dióxido de carbono. O outro é o nitrogénio.


O nitrogénio pode ser libertado do seu estado "fixo" como um sólido no solo através de processos naturais que lhe permitem circular livremente na atmosfera. Isto também pode ser feito artificialmente. Na verdade, os humanos agora contribuem com mais nitrogénio para ciclo do nitrogénio do que o faz o próprio planeta. Isto é, os humanos duplicaram a quantidade de nitrogénio em jogo.


Isto levou a um desequilíbrio. É mais fácil criar fertilizante nitrogenado do que aplicá-lo uniformemente pelos campos. Quando agricultores despejam nitrogénio numa plantação, grande parte é desperdiçada. Ele corre para dentro da água e do solo, onde reage quimicamente com a vizinhança para formar novos compostos ou corre para fertilizar outra coisa, em algum outro lugar.


Esta reacção química, chamada acidificação, é nociva e contribui significativamente para a chuva ácida. Um do compostos produzidos pela acidificação é o óxido nitroso (nitrous oxide), o qual agrava o efeito estufa. O crescimento das plantas normalmente contrabalança o aquecimento global ao absorver dióxido de carbono, mas o nitrogénio sobre os campos agrícolas mais o metano da vegetação decomposta torna todo hectare cultivado, assim como todo hectare da auto-estrada de Los Angeles, um contribuinte líquido para o aquecimento global.


A fertilização é igualmente preocupante. A chuva e a água de irrigação inevitavelmente lavam o nitrogénio dos campos para os riachos e correntezas, o qual flui para dentro de rios, os quais fluem para dentro do oceano. Isto explica porque o Rio Mississipi, que drena o Cinturão de Milho (Corn Belt) do país, é uma catástrofe ambiental. O nitrogénio fertiliza artificialmente grandes florescências de algas que ao cresceram sugam todo o oxigénio da água, uma condição que os biólogos chamam de anoxia, que significa "oxigénio esgotado". Aqui não é preciso calcular efeitos a longo prazo, porque a vida em tais lugares não tem longo prazo: todas as coisas morrem imediatamente. Os eflúvios do Rio Mississipi, pesadamente fertilizados, criaram uma zona morta no Golfo do México do tamanho de Nova Jersey.


A maior cultura da América, o grão de milho, é completamente intragável. É matéria-prima para uma indústria que fabrica substitutos alimentares. Da mesma forma, você não pode comer trigo não processado. Você certamente não pode comer feno. Pode comer feijões de soja não processados, mas a maior parte de nós não o faz. Estas quatro culturas cobrem 82 por cento da terra agrícola americana. A agricultura neste país não é para alimentos; é para mercadorias que exigem o dispêndio de ainda mais energia para tornar-se comida.


Cerca de dois terços do grão de milho americano leva a etiqueta "processado", significando isto que é moído e além disso refinado para alimentação ou utilizações industriais. Mais de 45 por cento dele torna-se açúcar, especialmente adoçante com alto teor de frutose do milho, o ingrediente chave em três quartos de todos os alimentos processados, especialmente em bebidas doces, o alimento dos pobres e das classes trabalhadoras da América. Não é uma coincidência que a pandemia americana de obesidade siga o aumento de cinco vezes na produção de xarope de milho desde que Archer Daniels Midland desenvolveu uma versão com alta frutose daquilo no princípio da década de setenta. Nem tão pouco é uma coincidência que a praga seleccione os pobres, os quais comem a maior parte da comida processada.


Isto começou com a industrialização na Inglaterra vitoriana. O império estava então cheio do açúcar das plantações nas colónias. Ao mesmo tempo as cidades estavam cheias de trabalhadores fabris. Não havia boa maneira de alimentá-los. E assim nasceu a pausa do chá da tarde, o chá consistindo primariamente de água quente e açúcar. Se os trabalhadores estivessem bem de vida, eles também podiam poupar pão com geleia pesadamente açucarada - a industrialização movida a açúcar. Houve um aumento de 500 por cento na capitação do consumo de açúcar na Grã Bretanha entre 1860 e 1890, um tempo em que a expectativa de vida de um trabalhador fabril masculino era de 17 anos. No fim do séculos o britânico médio estava a obter cerca de um sexto da sua nutrição total do açúcar, exactamente a mesma porcentagem que os americanos obtêm hoje - o dobro do que recomendam os nutricionistas.


Há um outro assunto de energia a considerar aqui, contudo. A trituração, moagem, humidificação, secagem e assadura de um pequeno-almoço de cereal exige cerca de quatro calorias de energia para cada caloria de energia alimentar que produz. Um saco com duas libras (0,9 kg) de cereal queima a energia de meio galão (1,89 litro)de gasolina na sua fabricação. Tudo em conjunto, a indústria de processamento de alimentos nos Estados Unidos utiliza cerca de dez calorias de energia de combustíveis fósseis para cada caloria de energia alimentar que produz.


Este número não inclui o combustível utilizado no transporte do alimento da fábrica para a loja próxima de si, ou o combustível utilizado por milhões de pessoas a conduzirem para milhares de lojas de super descontos no extremo da cidade, onde a terra é barata. Parece, contudo, que o ciclo do milho está prestes a fechar um círculo completo. Se se formasse uma coligação bipartidária de agricultores e legisladores estaduais - e parece que isso acontecerá - dentro em breve compraremos gasolina que contem o dobro do álcool combustível actual. O álcool combustível já se perfila em segundo lugar na utilização de milho processado nos Estados Unidos, atrás apenas dos adoçantes. De acordo com um conjunto de cálculos, gastamos mais calorias de energia de combustíveis fósseis a fabricar etanol do que ganhamos com isto. O Departamento da Agricultura afirma que o rácio está mais próximo de um galão de um quarto de etanol para cada galão de combustível fóssil que investimos. Aquele Departamento chama a isto uma pechincha, porque o gasool (gasohol) é um "combustível limpo". Esta afirmação de limpeza está em discussão ao nível do tubo de escape e ela certamente ignora a zona morta no Golfo do México, a poluição dos pesticidas e o nevoeiro de gases globais a acumularem-se sobre todo o campo agrícola. Nem esta afirmação limpa a consciência; alguns ainda podem ficar inquietos ao saberem que as exigências dos nossos SUVs [3] por combustíveis competem com as exigências dos pobres por cereais.


Os comedores de verduras, especialmente os vegetarianos, advogam comerem da parte baixa da cadeia alimentar, uma simples questão de fluxo de energia. Comer uma cenoura dá àquele que a ingere toda a energia da cenoura, mas alimentar uma galinha com cenouras e então comer a galinha reduz a energia num factor de dez. A galinha desperdiça alguma energia, armazena alguma como penas, ossos e outras coisas incomestíveis, e utiliza a maior parte dela apenas para viver o tempo suficiente até ser comida. Como uma regra prática, aquele factor de dez aplica-se a cada nível da cadeia alimentar, razão porque alguns peixes, tal como o atum, podem ser um horror nisto tudo. O atum é um predador secundário, significando isto que não só não come plantas como come outros peixes que eles próprios comem outros peixes, acrescentando um zero ao multiplicador a cada passo, facilmente uma centena de vezes, mais provavelmente um milhar de vezes menos eficiente do que comer uma planta.


Isto está muito bem na medida em que funcionar, mas o caso dos vegetarianos pode ser decomposto em alguns pormenores. Em questões de moral, os vegetarianos afirmam que os seus hábitos são mais benévolos para com os animais, embora seja difícil ver como exterminar 99 por cento do habitat da vida selvagem, como a agricultura fez no Iowa, seja benévolo. No Michigan rural, por exemplo, os cultivadores de batatas têm uma táctica peculiar para tratar dos cervos predadores. Eles dão-lhes tiros na barriga com rifles de pequeno calibre, na esperança de que os cervos se arrastem para as florestas e morram num lugar onde não empestem os campos de batatas.


Pondo de lado os direitos do animais, os vegetarianos podem perder no argumento da energia ao comerem alimento processado, com suas dez calorias de energia fóssil por cada caloria de energia alimentar produzida. A questão, então, é: Será que comer alimento processado como burgers de soja ou leite de soja anula os benefícios energéticos do vegetarianismo, o que quer dizer, será que posso comer minhas costeletas de carneiro em paz? Talvez. Se eu tiver tido a devida diligência, terei descoberto que o carneiro particular que estou a comer era tanto local como alimentado com erva, dois factores que naturalmente reduzem em muito a energia embebida numa refeição. Sei de ranchos aqui no Montana, por exemplo, onde o carneiro come ervas nativas sob circunstâncias estritamente controladas - sem agricultura, sem arados, sem milho, sem nitrogénio. Os recursos não foram despojados. Não posso comer a relva directamente. Isto pode prosseguir. Há poucos nichos como este no sistema. É da responsabilidade individual de cada um descobrir tais nichos.


As probabilidades, contudo, são de que qualquer comedor de carne chegará ao fim popular deste argumento, especialmente nos Estados Unidos. Tomemos o caso do bife. O gado pasta, de modo que em teoria poderia viver como o carneiro alimentado a erva. Algumas culturas de gado - aquelas na América do Sul e no México, por exemplo - aperfeiçoaram maravilhosas culinárias baseadas no bife alimentado a erva. Este não é o nosso hábito nos Estados Unidos, e é simplesmente uma questão de hábito. Oitenta por cento do cereal que os Estados Unidos produzem são para a pecuária. Setenta e oito por cento de todo o nosso bife vem de gado estabulado, onde ele come cereal, principalmente milho e trigo. Assim como a maior parte dos nossos porcos e galinhas. O gado passa a sua vida adulta comprimido ombro a ombro num espaço não muito maior do que os seus corpos, sendo alimentado com cereal e um fluxo constante de antibióticos para impedir as doenças que esta espécie de confinamento inevitavelmente engendra. O estrume é rico em nitrogénio e outrora providenciava fertilizante para a agricultura. Os resíduos, contudo, agora são removidos para longe dos campos agrícolas, pois simplesmente não é "eficiente" transportá-los para campos de milho. Isto é desperdício. Exala metano, um gás com efeito estufa. Polui fluxos de água. Desta forma, gastam-se trinta e cinco calorias de combustível fóssil para fabricar uma caloria de bife, sessenta e oito para fabricar uma caloria de porco.


Mais ainda, estes animais fazem algo que nós não podemos. Eles convertem carbohidratos de cereais em proteína de alta qualidade. Tudo bem, excepto que a produção per capita de proteína nos Estados Unidos é cerca do dobro daquela que um adulto médio necessita diariamente. O excesso não pode ser armazenado como proteína no corpo humano e é simplesmente convertido em gordura. Isto é o resultado final de um sistema fábrica-agricultura que surge como um modo de viver, monumento em escala continental a Rube Goldberg [4] , uma repetição em negro do milagre do pão e dos peixes. A produtividade da pradaria é perdida para o cereal, a produtividade do cereal é perdida no gado, a proteína do gado é perdida na gordura humana - tudo subsidiado pelo governo federal com cerca de US$ 15 mil milhões por ano, dois terços dos quais vão directamente para apenas duas culturas: milho e trigo.


Isto explica porque o perito em energia David Pimentel está tão preocupado com a adopção de métodos americanos pelo resto do mundo. Tem de estar, pois o resto do mundo está a adoptá-lo. O México agora destina 45 por cento do seu cereal para o gado, um salto em relação aos 5 por cento de 1960. O Egipto passou de 3 por cento para 31 por cento no mesmo período. E a China, com um sexto da população mundial, subiu de 8 por cento para 26 por cento. Todos estes lugares têm pessoas pobres que poderiam utilizar o cereal, mas elas não têm dinheiro para comprá-lo.


Vivo entre alces e aprendi a respeitá-los. Uma noite de luar no fim do último inverno olhei pela janela do meu quarto e vi cerca de vinte deles a pastarem um campo de erva do tamanho de uma sala. Exactamente aquele pequeno bocado entre hectares de outras espécies de relva da pradaria nativa. Por que aquelas espécies e apenas aquelas espécies de relva naquela noite no pior do inverno quando a ameaça à sua sobrevivência era a maior? Que nutrientes mágicos só esta espécie precisava? O que um animal selvagem sabia que nós não sabíamos? Penso que precisamos deste conhecimento.


Alimentação é política. Sendo este o caso, votei duas vezes em 2002. No dia seguinte ao da eleição, com um humor realmente lúgubre, escalei a montanha por trás da minha casa e descobri uma pequena manada de alces a pastar ervas nativas na manhã ensolarada. O meu respeito por estas criaturas ao longo de anos tornou-se tão grande que naquela manhã que não hesitei e fui directamente à minha tarefa: apanhar um cartucho e despejá-lo sobre uma alce fêmea, minha fonte anual de proteínas para a casa. Votei com a minha arma preferida - um acto não de todo incomum neste mundo, sobretudo, penso, devido ao modo como fomos alimentados na infância. Posso ver porque ele é popular. Tal voto tem uma certa influência satisfatória e sentido de finalidade. O meu bocado particular de violência, contudo, é mais satisfatório, penso, do que a restante confusão política do globo. Utilizei um rifle a fim de optar por não fazer parte de um sistema insano. Matei, mas assim fez você quando comprou aquele pacote de burger, mesmo quando comprou o pacote de burger tofu. Matei, e então os alces restantes prosseguiram, tal como o fizeram as ervas, os pássaros, as árvores, os coiotes, os leões da montanha e os besouros, a produtividade fundamental de um sistema natural intacto, todo ele prosseguiu.


Notas
1- Dust Bowl, Cinturão do Pó, área das Grandes Planícies (Texas, Oklahoma, Kansas, Colorado e Novo México) mais afectada pela grande seca da década de 1930.
2- Fascista estadunidense que em 1995 fez explodir um edifício governamental no Oklahoma.
3- Sport Utility Vehicle.
4- Cartoonista famoso pelos seus desenhos de máquinas malucas. Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Rube_Goldberg .


[*] Autor de Against the Grain: How Agriculture Has Hijacked Civilization


O original encontra-se em http://www.harpers.org/TheOilWeEat.html .


Fonte da tradução: http://resistir.info/energia/manning_p.html


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