A
África para além dos jornais (Carta Capital)
por Lino
Bocchini — publicado 10/05/2015
08h05, última modificação 10/05/2015 08h17
O
secretário-adjunto da ONU Carlos Lopes desmitifica a imagem negativa
do continente
A imagem da África ante a opinião pública mundial é baseada em exageros, equívocos e preconceitos. Os principais investidores dos países mais ricos sabem disso há tempos e o Brasil, antes um parceiro privilegiado do continente, vem perdendo espaço para outros emergentes, como a Turquia. Essa é a avaliação de Carlos Lopes, secretário-adjunto da ONU, que em abril esteve no Brasil por uma semana para uma série de compromissos, entre eles a formação do Conselho África, iniciativa do Instituto Lula, congregando historiadores, diplomatas e estudiosos do continente.
Natural
da Guiné-Bissau, Lopes é o responsável maior pela África nas
Nações Unidas e divide a sede da organização na Etiópia com
outros 2 mil funcionários. “Adis-Abeba é a Genebra da África, lá
também está a sede da União Africana, com outros 2,5 mil
funcionários”, explica.
CartaCapital: Naufrágios
como os ocorridos recentemente no Mediterrâneo são a face trágica
do fluxo de imigrantes africanos rumo à Europa. Qual a equação
possível?
Carlos
Lopes: Há quatro aspectos importantes. Primeiro, trata-se
de uma tragédia humanitária, e os líderes europeus têm dado
sinais contraditórios, não sabem muito bem o que fazer. O segundo
ponto é a alteração demográfica. Há um envelhecimento muito
grande da população europeia, os partidos de direita pressionam os
governos e o debate da imigração acaba no campo da segurança. Mas
a própria Comissão Europeia reconhece a situação catastrófica da
natalidade. A Europa, na verdade, precisa dos imigrantes.
O
terceiro elemento é que a imigração africana é, na verdade,
pequena. Se olharmos do ponto de vista macro, cerca de 2 milhões de
imigrantes seguem em direção à Europa a cada ano, e isso é muito
pouco em relação a 1 bilhão de africanos. Por último, a maior
parte desses imigrantes parte de duas zonas em tensão, a Somália e
a Eritreia. Seguem em direção à Líbia através do deserto
tunisiano. Desses quatro territórios – Líbia, Tunísia, Somália
e Eritreia –, três são antigas colônias italianas, e isso não é
coincidência, estamos tentando resolver um problema pós-colonial.
- O guineense Carlos Lopes chefia a sede da ONU em Adis-Abeba, a ´Genebra africana´
CC: Então,
o senhor acredita que a imigração, em vez de um problema, pode ser
parte de uma solução de problemas econômicos europeus, como a
falta de mão de obra, inclusive a qualificada?
CL: Exatamente.
Há uma grande oportunidade na Europa, se for estruturada uma
política de imigração voltada para as suas necessidades. A
previdência e a proteção social, por exemplo, não podem ser
mantidas com esse envelhecimento da população.
CC: Doenças
como o ebola causam grande temor e reforçam estigmas negativos do
continente e até a xenofobia?
CL: O
mundo tem alguma experiência com epidemias. Recentemente, lidamos
com epidemias como a Aids, o H1N1 ou a gripe aviária, e em todas
essas crises houve certo exagero no impacto econômico e na forma de
transmissão. Aos poucos vamos conhecendo-as melhor, e hoje ninguém,
por exemplo, é estigmatizado de forma ostensiva porque tem Aids.
Mas, no princípio, era, e havia esse pânico. No caso do ebola
acontece um pouco isso, a doença não é muito conhecida e
imagina-se uma transmissibilidade gigantesca. E essa percepção não
se dá por acaso, há muita informação exagerada.
Vejamos:
o centro de controle e prevenção de doenças em Atlanta, nos
Estados Unidos, um dos principais do mundo, previu há alguns anos
que a África teria 1 milhão de casos de ebola em 2015. Temos hoje
19 mil casos. O Banco Mundial também fez uma projeção, a do
impacto econômico do ebola para o continente: 32 bilhões de
dólares. A entidade reviu sua projeção agora em fevereiro para 3
bilhões de dólares. Esqueceu-se, por exemplo, que a economia dos
três países atingidos (Guiné-Conacri, Libéria e Serra Leoa) somam
6,4 bilhões de PIB, menos de 1% do total do continente. Portanto,
houve aí também um exagero gigantesco. O número de pessoas que
chegaram a morrer de ebola, cerca de 2 mil, não é muito diferente
do balanço de outras febres hemorrágicas.
- CC: O impacto do ebola não é então assim avassalador?
CL: Se
em vez de termos exagerado e dramatizado tivéssemos tido uma análise
um pouco mais fria, correta e racional sobre o que está se passando,
os esforços feitos de uma forma dispersa teriam sido muito mais
focados e teriam havido menos mortos. Comparemos, por exemplo, com a
dengue. Em São Paulo há hoje mais de 20 mil casos de dengue.
Obviamente não vão morrer 20 mil pessoas porque há estruturas
sanitárias capazes de absorver boa parte da epidemia. Na África
isso não existe em todos os países. Mas existe em alguns.
Quando
o ebola chegou ao Senegal, à Nigéria e ao Mali, países com
estruturas sanitárias de melhor qualidade, foi imediatamente
contido. No Senegal foi só uma pessoa. No Mali, também apenas um
contaminado. Na Nigéria, o país mais populoso do continente, foram
19 pessoas. Portanto é preciso dar a correta dimensão das coisas, e
a dramatização excessiva não ajuda.
CC: Milícias
cristãs realizaram uma limpeza étnica de muçulmanos na República
Centro-Africana em janeiro. Ao mesmo tempo, o Boko Haram, o Al-Shabab
e o Estado Islâmico protagonizam casos terríveis de violência
jihadista. Esses problemas adicionam novos ingredientes a um mosaico
de conflitos já bastante complexo?
CL: A
sensação de risco aumenta e isso é péssimo para a economia. Mas o
pior é para as pessoas. São 100 milhões de africanos afetadas
pelos conflitos. É muita gente. Mas a África tem 1 bilhão de
habitantes. Há, portanto, 900 milhões não afetados. Ou seja, 90%
do continente marcha na boa direção, tem ganhos de governança e
está fazendo muito melhor do que se fazia antes. Mas 100 milhões
ainda é muito. Por muito tempo havia dois tipos de conflitos no
continente: primeiro, aqueles gerados por grupos armados com
interesses econômicos em zonas ricas em minérios. Interessava criar
desordem para se beneficiar das indústrias extrativas em regiões
como a dos grandes lagos – Congo, República Centro-Africana etc.
O
outro tipo de conflito vem da má gestão da diversidade. Os
africanos tratam mal as minorias, a solidariedade africana é um
mito. Quem chega ao poder, mesmo por meio de eleições, quer
governar absolutamente. Agora surgiu um terceiro elemento, a filiação
de grupos locais com grandes causas mundiais, como o islamismo
radical. A mescla desses ingredientes é particularmente forte no Sul
do Saara. Nessa faixa, de uma ponta à outra da África, os grupos
têm conexões uns com os outros, e alguns estão ligados ao Estado
Islâmico, outros à Al-Qaeda... É um coquetel explosivo.
- CC: Há ainda as ditaduras longevas, como a da Guiné Equatorial, falada aqui no Brasil este ano pelo patrocínio à escola de samba Beija-Flor. De forma geral, como anda a democracia no continente africano?
CL: Só
em 2015, sete países já mudaram de líder de forma pacífica. Até
o final do ano teremos mais 20 eleições presidenciais. E, entre
esses sete países, está a Nigéria, o mais populoso do continente,
que nunca tinha passado por uma mudança pacífica de liderança.
Portanto há progressos claros, o número de ditadores longevos é
pequeno. Não despareceram como ainda não desapareceram na Ásia, e
como podem reaparecer na América Latina dependendo das mudanças em
curso em alguns países... De uma maneira geral as constituições
africanas impõem limites de mandato, hoje cerca de 90% delas têm
esses limites.
CC: Hoje,
o mundo todo está de olho no continente...
CL: Há
um paradoxo. A imprensa especializada, como o Financial
Times, The Economistou o Wall Street Jornal,
diz só coisas positivas, estão muito otimistas. Consultorias
importantes, como McKinsey, Boston Consulting Group ou Ernst &
Young têm análises extremamente positivas com relação à África.
A influência sobre a opinião dos investidores é a mais favorável
dos últimos 30 anos. O continente cresce cerca de 5% ao ano há mais
de 15 anos, resistiu bem à crise de 2008-2009 e os investimentos
privados só fazem aumentar. E neste ano serão aportados 104 bilhões
de dólares, o equivalente aos investimentos a serem feitos no mesmo
período na China, que tem uma população similar.
Estamos
bem nessa fotografia. Mas na grande mídia e na opinião pública
internacional a imagem segue muito negativa, baseada em doenças,
guerra, corrupção, fome... E agora há a dramatização dos
imigrantes, antes havia a pirataria na costa da Somália...
CC: Nessa
má imagem, influencia o preconceito racial?
CL: Pode
até ter algum preconceito racial, mas há uma questão de fundo
ainda pior: o costume de considerar a África um continente para o
qual não há muitas esperanças, de crescimento mais débil...
CC: E
esses investimentos chegam ao “andar de baixo”, em forma de
benefícios à população?
CL: Não
chega nem perto do que deve. É um crescimento sem qualidade porque
não é includente, não é estruturante. A economia africana está
extremamente dependente do consumo interno, e isso não é bom porque
não é necessariamente gerador de empregos. A transformação tem
que vir de uma maior produtividade agrícola e de uma
industrialização. Enquanto isso não acontecer, o “andar de
baixo” será algo beneficiado por esses investimentos, mas não
muito.
CC: Após
a aproximação promovida pelo governo Lula, o Brasil seguiu
avançando em sua relação com a África?
CL: Houve
muito investimento de empresas brasileiras e algum do BNDES – mas
não muito –, e uma relação mais estreita traz consequências
boas tanto para o Brasil quanto para os africanos. O interesse
crescente pelo continente, entretanto, não está sendo acompanhado
pelo Brasil. Parceiros mais recentes como a Turquia ou países do
Leste Europeu já fazem mais. Digo isso para o País acordar e não
perder o espaço conquistado nos últimos anos.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/revista/848/a-africa-para-alem-dos-jornais-9593.html?utm_content=buffera1101&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer
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